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Editora: 12min
Escala de trabalho é a forma como as horas da semana são distribuídas entre dias trabalhados e dias de folga. Na 6x1, o funcionário trabalha seis dias seguidos e descansa um; na 5x2, trabalha cinco e descansa dois. Para quem está atrás de um balcão de farmácia, de um caixa de supermercado ou de uma mesa de restaurante, essa diferença decide se dá para levar o filho à escola, estudar à noite ou simplesmente dormir até mais tarde em dois dias da semana.
Nesta semana, o Senado aprovou em dois turnos a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 e transforma a 5x2 no padrão nacional. Falta apenas a promulgação para a mudança valer oficialmente. É o momento de entender como ela funciona na prática, porque empresas do varejo e da alimentação testaram o modelo antes de ele virar lei, com resultados bem diferentes entre si.
A Consolidação das Leis do Trabalho não fixa um modelo único de escala. Até agora, ela só estabelecia um teto: oito horas por dia e 44 horas por semana. Dentro disso, cada empresa organizava os dias como quisesse.
Na 6x1, tradicional no comércio e em serviços que funcionam todos os dias, a jornada diária fica em torno de sete horas e vinte minutos. Na 5x2, a mesma carga semanal se concentra em cinco dias, o que eleva o expediente diário para cerca de oito horas e quarenta e oito minutos, segundo levantamento do g1 com especialistas. Quando a carga semanal é de 40 horas, a jornada volta às oito horas diárias.
Existem ainda a 4x3, com quatro dias de trabalho e três de descanso, que depende de negociação coletiva porque não cabe nas 44 horas sem estourar o limite diário, e a 12x36, comum em saúde e segurança, em que se trabalha doze horas seguidas e descansa trinta e seis.
A 5x2 não é invenção recente. Ela foi adotada pela Ford nos Estados Unidos em 1926, quando Henry Ford anunciou a semana de cinco dias com 40 horas em todo o seu parque fabril. O empresário argumentava que o ganho de eficiência da linha de montagem permitia devolver tempo ao trabalhador, que também era consumidor. O modelo se espalhou e virou lei nos Estados Unidos em 1940.
A campanha pelo fim da 6x1 nasceu de um vídeo. Em 2023, Rick Azevedo, então balconista de farmácia, desabafou no TikTok sobre a rotina de seis dias de trabalho e um de folga. O vídeo viralizou, deu origem ao movimento Vida Além do Trabalho e levou Azevedo a se eleger vereador no Rio de Janeiro pelo PSOL.
A pauta chegou ao Congresso por duas propostas de emenda à Constituição, uma do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), de 2019, e outra da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que pedia 36 horas semanais e escala 4x3. Elas passaram a tramitar juntas. Em abril deste ano, o governo Lula enviou ainda um projeto de lei próprio, com 40 horas e dois dias de descanso.
Prevaleceu o caminho da emenda constitucional. Relatada pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA), a PEC foi aprovada pela Câmara em maio, com 461 votos a favor e 19 contra no segundo turno. Passou pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em setembro, com o relator Omar Aziz (PSD-AM) rejeitando todas as emendas apresentadas, e chegou ao plenário sem alterações. Como o texto aprovado é idêntico ao da Câmara, a emenda vai direto à promulgação, sem sanção presidencial.
A jornada máxima cai de 44 para 40 horas semanais, mantido o limite de oito horas por dia. O repouso semanal remunerado passa de um para dois dias, um deles preferencialmente aos domingos. E o texto proíbe redução salarial, nominal ou proporcional, inclusive nos pisos de categoria e nos contratos já em vigor.
A transição tem duas etapas. Dois meses após a publicação da emenda, a escala 5x2 passa a ser obrigatória e a jornada máxima cai para 42 horas. Doze meses depois, chega a 40 horas. Ao todo, quatorze meses.
Duas folgas não significam necessariamente sábado e domingo. Comércio, saúde, limpeza e comunicação continuam autorizados a funcionar nesses dias, desde que garantam os dois descansos em outros dias. Acordos e convenções coletivas podem organizar escalas de revezamento e, durante a transição, ampliar a jornada diária para além de oito horas, respeitado o teto semanal.
O texto cria também a figura do chamado superempregado: quem tem diploma de nível superior e ganha pelo menos duas vezes e meia o teto do INSS fica fora do controle de jornada, mas mantém o direito às duas folgas. Servidores públicos não entram nessa exceção.
A RD Saúde, antiga RaiaDrogasil, implantou a 5x2 em todas as suas mais de 3.500 lojas. O movimento começou no segundo semestre de 2025, primeiro com gerentes e farmacêuticos, como forma de reter mão de obra qualificada e reduzir a rotatividade, e depois se estendeu a toda a rede. A empresa afirma ter absorvido a mudança sem aumento de custos, mas mantendo os funcionários em 44 horas semanais.
Antônio Carlos Pipponzi, conselheiro da RD Saúde, defende o modelo para cargos de liderança e critica a obrigatoriedade legal. Pelas contas da companhia, reduzir a jornada para 40 horas elevaria os custos operacionais em 10%. Um estudo interno feito antes da mudança apontou que cerca de um quarto dos funcionários preferiria continuar na 6x1.
O caso oposto é o do grupo Bah, do chef gaúcho Marcos Livi. Ele testou a 5x2 em cinco restaurantes e um hotel no primeiro trimestre deste ano e desistiu. "Como a jornada de trabalho continuou de 44 horas, isso fez com que aumentasse em uma hora a carga nos dias trabalhados, o que mexeu na rotina das pessoas", disse à Folha. Ele relata ainda queda nas gorjetas, porque a equipe ampliada divide o mesmo valor, e necessidade de contratar um funcionário extra a cada dois para cobrir as folgas.
A H&M chegou ao Brasil com jornada 5x2 em suas lojas, decisão que a empresa atribuiu a uma questão de qualidade de vida e à equiparação com o escritório administrativo, onde o padrão já era esse. A Vale já adota 5x2 com 40 horas para todos os funcionários. O parque Beto Carrero World trocou a 6x1 pelo modelo 4x2, e o CEO Alex Murad afirma que a transição exigiu aumento da folha de pagamento, mas resultou em melhora no atendimento e menor rotatividade.
Vale notar o que une os dois extremos: tanto a RD Saúde quanto o grupo Bah testaram a 5x2 mantendo as 44 horas semanais, ou seja, sem a redução de jornada que a PEC determina. O que eles mediram foi a redistribuição dos dias, não o modelo completo.
A Confederação Nacional da Indústria calculou que o fim da 6x1 elevaria os custos das empresas em até R$ 267,2 bilhões por ano, o equivalente a 7% da folha de pagamento, se a adaptação for feita por contratações. Se for por horas extras, o valor cai para R$ 178,2 bilhões.
O Ipea chegou a um número menor: alta de 7,84% no custo da mão de obra na transição para 40 horas, que, segundo o pesquisador Felipe Pateo, seria reabsorvida pela economia. Já pesquisadores do FGV Ibre estimam que a mudança pode reduzir em 2,9% a produção de riquezas do país e elevar o custo do trabalho em 20%, ainda que eleve o bem-estar de quem continuar empregado.
Esses números medem coisas diferentes, com métodos diferentes, e nenhum deles decide a questão. Custo de folha não é o mesmo que efeito sobre o PIB, e estimativa de impacto futuro depende de premissas sobre como empresas vão reagir, algo que só se verifica depois.
Outro ponto levantado pelo economista Daniel Duque, do FGV Ibre, em levantamento para o Centro de Liderança Pública: a obrigatoriedade de dois dias de folga é rara no mundo, mesmo em países com jornada menor que a brasileira. Na França, a carga legal é de 35 horas, mas pode ser distribuída em seis dias. Ele observa que o trabalhador ganha um dia de folga e perde a possibilidade de jornadas diárias mais curtas, e cita Colômbia e México como casos que adotaram prazos de transição mais longos.
Pesquisa Datafolha de março apontou que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6x1. Levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro encontrou apoio de 78% à troca para a 5x2 com 40 horas, com adesão que atravessa a divisão política: 61% entre eleitores de direita e 96% entre os de esquerda.
Entre quem trabalha na 6x1, o levantamento do Locomotiva registrou que a maioria diz que a escala afeta o tempo com a família e piorou a saúde mental. Entre os contrários à mudança, a preocupação principal é o repasse de custos aos preços.
O primeiro marco a acompanhar é a data da promulgação, porque é dela que partem todos os prazos. Dois meses depois, as duas folgas semanais passam a ser obrigatórias e a jornada cai para 42 horas. Doze meses depois disso, chega às 40 horas.
Quem é empregado deveria conferir o acordo ou a convenção coletiva da sua categoria. Cláusulas que tratam de jornada de 44 horas perdem validade dois meses após a promulgação, e a negociação entre sindicato e empresa é que vai definir como as folgas serão distribuídas, se haverá banco de horas e como ficam as jornadas diárias durante a transição. Quem já trabalha 40 horas ou menos não terá redução adicional. Quem cumpre 40 horas distribuídas em seis dias terá a escala reorganizada.
Para quem gerencia um negócio, os relatos de quem testou antes servem de referência: a gestão das folgas foi o desafio citado por quase todas as empresas, e os casos de desistência envolveram justamente manter a carga semanal antiga enquanto se reduzia o número de dias.
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